SELETOS
Desde a
última quinta-feira (2/7/2026), meu estado de graça tem estado em excelsa ebulição
poética. É que o chamado da Academia Maranhense de Letras para apreciarmos o entoar
do poeta e ensaísta andreense, Tarso de Melo, a partir do repertório
drummondiano, renovou minhas células, limpou meu sangue e me permitiu continuar
me permitindo ser menino.
Enquanto no Oriente Médio e no Golfo
golfam mísseis, em São Luís do Maranhão – alma do Poema Sujo que limpa nossas
almas, Drummond missionariza por meio do Tarso, intermediado pelo também poeta
Josoaldo Lima Rêgo, sob os auspícios da AML.
Aproveitando o momento de férias,
cheguei cedo à Casa de Antônio Lobo na quinta nobre e, de cara, deparei-me com
uma reunião de mesa redonda entre alguns acadêmicos e nosso visitante. Em
seguida, o discursar do poeta ensaísta. Sem tons meritocráticos, ele foi direto
ao ponto, ofertando-nos o caracol de Octávio Paz para ouvirmos a Música do
Mundo.
Embora de férias, mas com muitas
situações para resolver, fui, pois o chamado foi alto. Mago Drummond encurtou
distância e me fez chegar mais perto para contemplar palavras. A tarde
transmutou-se em noite e nem percebi.
Ali, seleto público e uma ressonância
de uma orquestra que levou décadas para chegar ao seu momento de apresentação. Tarso
é um desses seres raros feito uma libélula verde que nunca mais vi. Seu
conhecimento poético nos leva a um homem centenário, destoante do jovem
vitaminado pela poesia, de tímpanos asseados e olhar de longuíssimo alcance,
apanhador de livros até “na flor do ar”. Seu potencial memorável para registrar
textos de autores de estilos de época diferentes e sua longuesa discursiva, prenhe
de consciência, apresentada com entusiasmo são impressionantes e motivadores.
Retornei sexta-feira para uma oficina
literária, contrariando uma promessa de que não participaria mais desse tipo de
evento, mas para minha surpresa, gostei, porque não fluiu sob um tom canônico
ou acadêmico, porém sob aspectos semânticos e semiológicos. Em voga: educação
do olhar, do sentir e da escuta. Captações de múltiplas possibilidades de
ângulos, níveis, tessituras e dimensões nos planaltos e nas planícies dos
poemas. Sensibilidade posta em questão em que experientes, experimentados e
neófitos ouviram Drummond, Bashô, Gonçalves Dias, Leminski. Gullar, João Cabral
de Melo Neto, Murilo Mendes, Caetano, Chico – cada qual com seu caracol e
conseguiram destilar notas e versos.
Sábado, tonificado, fui ao lançamento do livro “Música do Mundo – Introdução à Poesia”, no Museu Histórico e Artístico de São Luís, sendo contemplado pela meiga receptividade da gestora daquela Casa, Amélia; por mangueiras resistentes e frondosas, no verdor da esperança, no jardim Jacinto Inocêncio, onde, inundado por poesia, Tarso de Melo aperfeiçoou seu canto drummondiano para um seletíssimo grupo. Revi amigos que há muito não via, dentre os quais, Lúcia Santos – a poeta que com seu Batom Vermelho pintou os lábios das palavras. Saí de lá voando fora da asa. Ah, Sábado! Ah, Sábado!
César William é poeta, professor e pesquisador.



Comentários
Postar um comentário