LIVRO MARANHENSE É PARA
SER LIDO
A Literatura Maranhense precisa voltar ao centro
das escolas e da vida nas comunidades
Todo dia descubro um novo
escritor maranhense extremamente talentoso. Alguns fizeram enorme sucesso na
época que viveram, tais como João Clímaco Lobato, Humberto de Campos, Coelho
Neto, Padre Mohana...Outros do nosso tempo, ainda esperam o justo reconhecimento
pela sua valiosa obra, como Nonato Reis, Vinícius Bogéa e Chico Fonseca. Mas,
infelizmente a maioria segue esquecido. E a culpa não é deles.
A despeito da enorme
qualidade literária de nossos escritores, do intenso calendário de lançamentos
(quase toda semana tem livro novo na “praça”), o considerável surgimento ou
ressurgimento de academias de diletantes nas cidades e bairros maranhenses e organização
de feiras e festas literárias, além de clubes de leitura e leitores, as obras
maranhenses ainda não voltaram a ocupar o centro das nossas vidas.
Já faz tempo que
consumidores ávidos por novos capítulos de romances maranhenses, aguardavam na
frente dos jornais o novo exemplar do dia para saber o desdobramento do romance
literário de sucesso. Bons tempos quando os professores trabalhavam obras literárias
maranhenses nas escolas com enorme orgulho e contavam com o entusiasmo dos
alunos e apoio das instituições de ensino.
“Cazuza” do maranhense
Viriato Corrêa, foi obra tão presente por décadas em escolas Brasil afora, que
acabou apelidando carinhosamente o arteiro cantor e compositor de “Exagerado”,
Agenor (Cazuza). E isso para ficar em apenas um exemplo.
Os versos de “Se Se Morre
de Amor” de Gonçalves Dias endossaram milhares de bilhetes de amor que
circularam sorrateiramente entre as carteiras escolares. Os poemas de Catulo da
Paixão Cearense não faltavam nas serenatas ao luar e as rimas dos poetas Salgado
Maranhão e José Chagas viraram clássicos do cancioneiro popular.
Agora, imaginem uma
homilia na Igreja da Sé com o saudoso autor de “Maria da Tempestade”, “Outro
Caminho” e “Sofrer e Amar” (Padre João Mohana). Ou, chegar em um inferninho no
centro da cidade e ouvir o erudito “espraguejar” do poeta Nauro Machado.
Além disso, nossos
escritores estavam no centro do debate político na comunidade, prova disso é
que muitos foram eleitos deputados, principalmente com a força do sucesso de
suas obras.
Um fato pitoresco desse
estrondoso sucesso, é que na época das cédulas, no início do século XX, o
escritor Humberto de Campos que morava no Rio de Janeiro, teve mais votos que
os candidatos que de fato concorriam ao cargo no Maranhão. Depois foi eleito, de
certa forma sucedendo seu incentivador e amigo Coelho Neto.
Mas afinal, o que
aconteceu com nossos leitores que não alcançam mais as obras escritas por
maranhenses? Por que essas obras não estão nas escolas e nas comunidades? Por
que suas ideias e ideais saíram de cena? Produtividade e qualidade não faltam.
Será um problema de autoestima? Realmente não sei.
Lembro que o escritor
baiano, Itamar Vieira Junior no intervalo da sua participação no programa Giro
Nordeste na TVE Bahia, me contou não só que havia morado em São Luís durante
alguns anos, mais precisamente no Barramar e que havia trabalhado como geógrafo
do INCRA aqui na capital maranhense, como revelou que muitos elementos do seu
clássico “Torto Arado”, embora ambientado na Bahia, tem forte inspiração do
interior maranhense.
A escritora carioca
Tatiana Levy, em outra edição do mesmo programa também me revelou que um de
seus livros não só foi escrito, como descreve cenas na Ilha dos Lençóis, no
Litoral Ocidental maranhense. Por outro lado, uma plêiade de autores locais
quando descrevem a beleza e personagens pitorescos de suas cidades são
completamente ignorados por seus conterrâneos.
Será preciso o eterno
reconhecimento externo para validar o talento dos nossos escritores? Como já
disse, não tenho senão mais indagações que respostas. Mais suspeito, que faltem
ações efetivas para reverter esse lamentável cenário.
Educação e leitura, antes
de mais nada precisam ser política efetiva de Estado. Prioridade absoluta e
inegociável de qualquer governo. As bibliotecas, faróis do saber, livrarias,
bancas de revistas e salas de leitura precisar ser reabertas e equipadas com
acervo local.
O Poder Público precisa
estra presente com aporte financeiro e com instrumentos de consolidação nos
eventos literários da cidade. Os concursos e editais permanentes de publicação
e republicação de livros literários precisam ser ampliados e contemplar novos
autores de variados gêneros literários.
O livro precisa estar
acessível, a mão de leitores onde quer que eles estejam, falando de mundos,
inventados e reais, dando voz e eco aos medos, paixões, amores, desejos, dores
e frustações de quem ler.
Que os livros sigam
vivos, dentro das escolas e nas comunidades, fora das estantes e das caixas.
Sendo o sonho para quem hoje lê, mas amanhã certamente vai escrever sobre nosso
mundo.
Marcus Saldanha é historiador, jornalista e escritor.


Interesse e oportuno o seu texto, meu querido confrade. Eu costumo dizer que falta uma política de governo para a literatura, algo abrangente que, não apenas democratize o acesso ao livro, mas aborde a leitura de forma plena, desde ensinar o cidadão a ler, coisa que poucos sabem, exatamente pela falta de incentivo. Um livro fechado sobre a mesa é só um adereço; aberto pode promover uma revolução.
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