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 A CRÍTICA E SEU(S) DESERTO(S)

 


Num país, melhor ainda, num momento em que as condições materiais, imateriais e relacionais permitiram a explosão das publicações, talvez como nunca, sejam elas em forma de impressos ou de objetos virtuais, vem à tona, hora ou outra, um anseio pelo crítico, o crítico literário, o crítico de poesia. Alguém talvez que, com seriedade e “isenção”, pudesse nortear uma qualidade em meio à enxurrada tanto de excelências quanto de 'quaisquercoisas' e despropósitos, com a qual constantemente nos deparamos.

Mas, por inúmeros motivos, essa é uma fala ou um anseio no mínimo anacrônico. É o anseio idealista por uma impossibilidade.

Não que não existam vozes capazes, cuja competência torne confiáveis seus trabalhos, artigos, revistas, blogs. Mas porque a crítica, também posta em crise, vem de um cansaço e destroçamento de no mínimo de dois séculos, quando seus diversos olhares se exauriram ou vieram sendo desmontados. Os principais paradigmas dessa exaustão e dos bombardeamentos são, talvez, a crítica biográfica, ante a patente invenção das vozes e a cisão do sujeito, a crítica impressionista, ante o tratamento metodológico, e o estruturalismo, ante o discurso sócio-histórico bem como ante as abordagens culturais. E mesmo as contraposições não estão isentas de seus calcanhares de Aquiles, que estão, no mais das vezes, justamente no centro mesmo do seu entusiasmo.

Os principais meios de exercício e publicação da crítica também, principalmente de sua circulação do final do século XIX até os anos 1960, 1970, do século XX, a imprensa, veio se fragilizando, escasseando. Teve que ceder lugar às urgências econômicas e cotidianas e às razões do new criticism e ao restante da “crítica acadêmica” (que, convenhamos, não é crítica como aquela antes esperada, mas um arrazoado metodológico cujo principal objetivo é pôr o próprio discurso crítico em crise), ficando os raros suplementos, quase sempre também abraçando o tom do comentário, quando não do encômio. Não se trata aí de erro ou culpa, mas dos irremediáveis, dificilmente superáveis problemas da crítica literária.

Além do que já foi dito, há várias outras complexidades com as quais a crítica se depara, neste momento.  Sabemos que ela trabalha com o julgamento e o discurso disciplinar, a partir de certos conhecimentos, entendimentos e convicções, enfim, com o ponto de vista. Porém a vontade de controle nesse discurso já foi evidenciado e rechaçado, por exemplo, de Foucault a Deleuze, e ela necessita achar uma alternativa construtiva em meio ao diverso, num momento de busca de caminhos os mais díspares e heterogêneos, dentro de um contexto de pós-verdade e micronarrativas (para tomar aqui o já conhecido conceito de Jean-François Lyotard), em que a “verdade única” simplesmente desaparece. Na arte, como na vida, o maior princípio é a liberdade. E os indivíduos, os grupos, as comunidades, ninguém pretende, nem irá se submeter a algo que alguém diga que soe como regra única, talvez nem mesmo como “regra” – de escrita. E embora saibamos ainda ser possível reconhecer certas qualidades dentro de uma determinada arte, na verdade deveremos estar dispostos à mudança de zap, ao bloqueio, ao fato de que nem o artista nem seu público necessitam de “minhas” lamúrias em defesa da boa arte. Neste grande game, joga comigo quem quer, ou quem eu quero (se detenho alguma forma de controle), há inúmeros jogos, e o mais patente deles é o da falação derivada da impossibilidade de dizer, os jogos de linguagem.

No atual contexto brasileiro, por exemplo, um crítico terá de lidar com a questão política e a escolha de lados. Nesse sentido, dificilmente será dada como mais importante uma questão literária, porque os olhares estarão muito mais, provavelmente, voltados e ansiosos para a leitura da questão política, por sua urgência. Ou para as questões pragmáticas. No olho do furacão, a literatura e sua enferma crítica têm que responder às questões de ordem, inclusive à sua possível, legítima ou ilegítima instrumentação – seja de bandeira, seja do ingênuo otimismo.

Somado a tudo isto, entre tantos outros pontos, no circuito literário há o problema dos jogos de interesse comerciais e pessoais, as relações de afeto e/ou reciprocidade, as mitologias próprias, os acordos tácitos, a fatigante e pragmática troca de elogios; ou, de outro lado, as frágeis relações entre produção, autoria e leitura: quem lê, de qual modo... Se há aí ainda algum papel, responsabilidade ou inserção do crítico...

É preciso reconhecer, no entanto, que as vozes de colocação crítica, tanto de discordância quanto de esclarecimento de determinados caminhos, dentro de uma postura construtiva, equilibrada, competente e, sobretudo, clara, sempre serão necessárias dentro do que entendemos como sistema cultural-literário, como aquele quarto elemento que pode impulsionar o fazer e o ser literário, entre a produção (autor e editor), a obra, com suas linguagens e suportes, e sua recepção.

Esse ainda é o papel dessa figura que entendemos como o “critico”. Mas só a este, até como pária ou insurgente, mas não como comparsa, cabe a ponderação de seus limites, de se e quando deve clamar, a despeito do descrédito, da consciência de que fará inimigos, e de que alguns pedirão sua cabeça.

O papel do crítico sério é um papel de ‘joão batista’ teimoso e incrédulo, não de salvador, porque este é como uma fera do labirinto borgeano: está sempre à espreita, mas não virá, porque, no fundo (das sombras), sequer existe. Para além dos desertos ou dos gafanhotos, a coragem ainda deve nos levar a dizer e protestar, em meio à linguagem, que nos suga e alimenta.

 

Antonio Aílton escreve aos domingos para o Textual.

Comentários

  1. Texto belíssimo... profundamente esclarecedor. Deveria ser lido pelos adoradores de aplausos fáceis. Parabéns Antonio Ailton.

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    1. Obrigado, caríssimo poeta João Batista Gomes do Lago, pelas palavras de reflexão e estímulo.

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  2. Salve, Antonio Ailton. Faróis necessários em.meio ao céu escuro de pensamentos e versos mancos. Viva!

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